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Artigos e entrevistas

Linair Moura Barros Martins
Especialista em Educação Especial e Mestranda em Educação

Resenha do livro "Ouvindo o silêncio"
Data: 18/12/08

Ouvindo o Silêncio não tem a pretensão de trazer uma teoria nova sobre a surdez ou sobre a educação dos surdos. Com muita sensibilidade, os dois autores desta obra tratam de questões relacionadas à surdez e à relação pedagógica. Armando, um dos autores, é surdo e relata sua experiência de vida desde o nascimento, ressaltando os desafios e as barreiras superadas para chegar ao “lugar que chegou” tendo como presença forte a sua mãe, professora de surdos, mas que nunca o poupou do peso de assumir a sua diferença e, por ela, conquistar sua autonomia e alcançar os sonhos.

A autora é a professora de mestrado que tomou como matéria-prima no trabalho com Armando, sua “inexperiência” e fez disso um recurso para um grande aprendizado; seu trabalho pode trazer contribuições para a sociedade como um todo e propiciar reflexões sobre a prática inclusiva, particularmente, na educação dos sujeitos surdos.

Ângela Carrancho é pesquisadora da Fundação Cesgranrio Doutora em Educação, Ciência e Tecnologia – UNICAMP e professora da UERJ. Seu percurso profissional teve inicio como professora de inglês (ensino de segunda língua). Ela ressalta a importância de se conhecer a cultura da língua que se está aprendendo, fato importante para o trabalho com surdos; o objetivo do seu doutorado foi enriquecer o processo de letramento do surdo usando a tecnologia. Participou de vários congressos nacionais e internacionais sobre a surdez e desenvolveu um programa que lhe rendeu um prêmio concedido pelos EUA e assim conheceu cinco estados americanos em questões relacionadas à educação especial, à informática e à surdez.

Em Gallaudet, universidade americana para surdos, pôde compreender o valor da língua de sinais, os recursos e suportes da educação de surdos. Também soube reconhecer os problemas do Brasil neste aspecto. Seu projeto de desenvolvimento de ferramenta no campo da informática, levando em conta a habilidade visual altamente desenvolvida do surdo – Kayru - não saiu do papel, mas a aproximou de Armando.

Sua abordagem epistemológica em relação à surdez é bem contextualizada, porém os temas são revisitados com superficialidade, mas concluem pelo respeito à língua de sinais no âmbito da educação de surdos, seguindo a tendência da educação bilíngüe. Os principais autores citados são: Lacerda, Quadros, Goes, Rinaldi, Ferreira Brito, Fernandes, Capovilla, Behares, Bellugi e Klima, dentre outros.

A obra poderá ser muito útil para professores, surdos e familiares de surdos. Os professores poderão ser sensibilizados pela experiência da autora, além de serem levados a refletir sobre as práticas pedagógicas para a educação dos surdos e os resultados que tais práticas poderão alcançar para o bem ou em prejuízo desses alunos. A última parte escrita por Ângela Carrancho é especialmente importante por fazer uma análise das representações sociais da surdez. Com elementos conceituais trazidos da sociologia e antropologia a autora consegue estabelecer uma relação clara entre as práticas sociais e o poder de tais representações na constituição dos sujeitos, possibilitando a reflexão em torno da necessidade de redimensionamento das práticas ditas inclusivas na educação dos surdos.

Os familiares poderão encontrar no exemplo de Armando um modelo para enfrentar as dificuldades impostas pela sociedade, além de ter uma verdadeira aula de otimismo e perseverança em meio às adversidades. Seu exemplo traz uma nova perspectiva em torno do bilingüismo, pois se trata de uma pessoa surda falando sobre esse tema. Nessa questão, ele se assume bilíngüe, trazendo para este conceito fatos da vida cotidiana que normalmente não são considerados no bilingüismo escolar nem nas discussões acadêmicas sobre o tema.

Os surdos poderão ter um belo exemplo de vida com o qual poderão se identificar. Há pouca literatura disponível nesse campo, poucos são os livros escritos por surdos e este pode servir de meio para uma reflexão em torno das práticas sociais, mas, mais do que isso, pode propiciar a reflexão em torno das posturas que a pessoa surda assume diante da sociedade, em geral despreparada e preconceituosa, possibilitando uma tomada de posição mais ativa em relação ao direcionamento da própria vida.

O livro divide-se em duas partes. Na primeira parte, a autora Ângela Carrancho, apóia-se em leituras para desenvolver os temas relativos à surdez: a história da educação dos surdos, as propostas pedagógicas, a língua de sinais, a aquisição da escrita e da língua portuguesa. Sua abordagem assemelha-se a uma pesquisa bibliográfica. Não busca muita profundidade em cada tópico, mas consegue contextualizar os temas da surdez dentro das perspectivas que apontam para a educação bilíngüe do surdo e que valorizam e compreendem a língua de sinais como importante fator na formação da cognição e no desenvolvimento de habilidades lingüísticas que ultrapassam a função comunicativa.

Na segunda parte, Armando relata sua experiência de vida, do nascimento aos dias atuais, ressaltando as enormes dificuldades impostas aos que estão na condição de surdez. A cada linha do texto, pode-se experimentar o otimismo e a grandeza de um ser humano que soube ressignificar sua existência dolorosa, transformando-a numa história vitoriosa. Pelo texto pode-se conhecer uma mãe resignada na tarefa de conduzir a educação de um filho surdo, tendo que fazer escolhas, nem sempre fáceis, mas sempre acreditando que fazia o melhor.

A saga do autor é contada de forma emocionante; pelo texto, o leitor se torna participante de suas dores e também pode torcer e se reconfortar com as vitórias alcançadas. O mais importante, entretanto, é que a história traz uma lição de vida para qualquer pessoa ao apresentar alguém que não se abateu diante das dificuldades, mas conseguiu capitalizá-las em seu favor e, acima disso, não perdeu a sensibilidade, a fé e a crença em si mesmo e no mundo.

Finalizando, Ângela Carrancho aborda a questão das representações sociais em torno da surdez e suas conseqüências na constituição das identidades dos sujeitos surdos. Esta abordagem traz grandes contribuições que poderão subsidiar questionamentos em termos gerais e escolares dos valores e representações sociais que, construídos coletivamente, afetam diretamente as nossas vidas e constituem modelos de ação que conduzem estabelecimento das relações sociais. Neste sentido, o livro apresenta-se como um excelente argumento para a reflexão em torno das práticas inclusivas presentes em nossas escolas.

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