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Artigos e entrevistas

Gustavo Ioschpe
Mestre em Economia Internacional e Desenvolvimento Econômico pela Universidade Yale, é formado em Ciência Política e Administração Estratégica na Wharton School

Brasileiro não sabe ler
Data: 10/08/05

As iniciativas do mercado livreiro no sentido de ampliar o número de bibliotecas do país ou de obter isenções fiscais para os produtores de livros são positivas e meritórias, mas, se o objetivo é ampliar o público leitor brasileiro, são tão producentes quanto estimular surdos a irem a concertos por meio de descontos em bilheteria. A verdade é que o brasileiro não sabe ler. Para essas pessoas, o mundo da leitura é tão impenetrável quanto é o mundo da música para os deficientes auditivos. Só que com uma vantagem: ainda que todos nasçam analfabetos, todos podem aprender a ler. Analfabetismo tem cura.

Quando falo aqui que brasileiro não sabe ler, não o faço em sentido figurado, me referindo à falta do hábito da leitura ou à aversão à palavra escrita. Quero dizer, pura e simplesmente, que o brasileiro não consegue decifrar letras por uma carência educacional. Pesquisa recente do Instituto Paulo Montenegro, vinculado ao Ibope, revelou que só 25% dos brasileiros adultos têm plena habilidade de leitura, sendo capazes de obter informações de textos longos. Três quartos de nossos concidadãos, portanto, estão alijados do mundo das letras. Esse é um dado absolutamente chocante, mas o país não parece se importar. Se medíssemos então a fatia desses 25% de letrados que conseguem ler um livro, suspeito que o valor cairia para a metade, no máximo.

Parece óbvio, portanto, que o pulo do gato do mercado editorial brasileiro não se dará por meio de uma competição mais eficiente de editores e de livreiros por esse público restrito, mas sim quando o público potencial passar de 5% ou 10% da população para 20%, 40% ou 60%. E o único meio de se chegar a esses níveis é através da melhoria da qualidade da educação.

Como se melhora a qualidade educacional de um país? A primeira coisa que tem de ficar clara é que não dependemos das soluções tradicionais, uma simplista e falsa e a outra impossível. A simplista diz que o problema se deve ao baixo salário dos professores. Seria apenas uma questão de "resgatar a dignidade do magistério" através de salários mais altos e teríamos um ensino bem melhor. Infelizmente, as literaturas empíricas nacional e internacional não corroboram essa visão. Em primeiro lugar, salário de professor tem impacto majoritariamente insignificante sobre o desempenho do aluno. Em segundo, estudos apontam que o professor brasileiro, ao contrário do suposto axioma que nos é martelado desde o berço, não é mal pago quando comparado a outros profissionais com o mesmo nível educacional e a mesma carga de trabalho.

A idéia impossível e, portanto, imobilista, diz que uma educação de qualidade é impraticável quando a nação inteira vai mal e os alunos são muito pobres. Seria necessário mudar primeiro o país para cambiar o sistema de ensino. Como o Brasil não avançará enquanto nosso sistema educacional não melhorar, está dada aí a receita para a estagnação eterna. Só precisamos lembrar o fato de que os Tigres Asiáticos, por exemplo, tinham renda bem menor que a do Brasil há apenas três décadas para notarmos como é possível - aliás, indispensável - a criação de um sistema educacional de qualidade em um país pobre.

O que adianta, então? Estudos internacionais apontam uma série de fatores: aumentar o conhecimento que o professor tem da matéria estudada, utilizar mais lição de casa, resolver os problemas de infra-estrutura de nossas escolas (quase um quarto delas não tem eletricidade, mais de 10% não possuem banheiros), ter um diretor preparado para o cargo (aliás, ter um diretor: 70 mil escolas não têm diretor!), usar livros didáticos de qualidade e com maior freqüência, não usar tempo de aula para fazer exercícios... A lista é muito longa, e não há nada de extraordinário, nada que o bom-senso não recomende.

A clareza do que está por ser feito remete a uma outra questão: se a coisa vai tão mal e há tanto a se fazer, por que não se faz? Essa é uma questão que sai da órbita técnica e vira política.

O problema da educação brasileira é que nenhum dos envolvidos está muito preocupado. Aqueles que conhecem o problema e valorizam o conhecimento têm, via de regra, condição de colocar seus filhos em escolas privadas. Ainda que as escolas privadas brasileiras sejam também ruins, quando comparadas em perspectiva internacional, e ainda que, segundo estudos, 80% das diferenças de desempenho entre as públicas e as privadas sejam atribuíveis ao status socioeconômico do alunado e não a diferenças da própria escola, a comparação entre a pública e privada é, ainda assim, francamente favorável à última. Então os pais de classes média e alta, que colocam seus filhos nas escolas particulares, despreocupam-se com o rendimento das públicas. Nestas, professores e diretores, obviamente, não querem nenhuma reforma profunda, que os ameace.

Os alunos não sabem quão ruim é sua educação, até porque ninguém com 7 ou 10 anos tem condições de fazer esse julgamento. Quando o aluno diz que a aula é chata ou que não está aprendendo nada, os professores culpam seus pais ("cachaceiro") e os pais culpam os próprios filhos ("vagabundo"). Os pais, que deveriam ser os maiores interessados na qualidade da educação dos filhos, por sua vez, têm dois handicaps que os alijam do processo. Em primeiro lugar, os dados indicam que a maioria dos pais de crianças do ensino público não passou da 4ª série do ensino fundamental. São pessoas com pouca capacidade de julgar o que seria uma escola de qualidade, portanto. A maioria está contentíssima de o filho ter a oportunidade de estudo, e não lhe passa pela cabeça que o ensino possa ser assim ruim. Mesmo os que têm a consciência do problema não possuem voz política para corrigi-Io.

Os políticos também não se preocupam, já que o que dá voto é construir escolas e aumentar salário de professor. Alguém já ouviu algum político em campanha dizendo "quando eu era prefeito, nossas crianças passaram de 250 para 320 pontos no SAEB"? Imagino que não. Aliás, se você sabe o que é o SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), já faz parte de uma minoria.

Nessa situação de estagnação, a participação dos setores de elite - tanto intelectual quanto financeira - se faz indispensável. São eles, especialmente os empresários, que deveriam notar que o Brasil se tornará rapidamente inviável com a qualidade de seu capital humano nessa chamada "Era do Conhecimento" em que vivemos. Eles deveriam notar que a desindustrialização que estamos sofrendo não é resultado de diferencial de taxa de juros, mas bate mais fundo na comparação entre a produtividade de nossos trabalhadores e daqueles de países do primeiro mundo. Suspeito que, enquanto as classes média e alta não passarem a exigir educação de qualidade para a escola do filho de suas empregadas, continuaremos mal.

Dentro do empresariado nacional me parece que duas categorias têm importância primordial, capazes de encampar essa batalha e se tornar pontas-de-Iança na revolução do ensino: os empresários de comunicação e os editores/livreiros.

Por três razões. Primeiro, por terem um nível intelectual mais alto, sendo capazes de perceber tendências invisíveis aos outros membros da caverna. Segundo, por serem dotados de forte espírito cívico, por trabalharem em áreas de grande impacto social. E, finalmente, porque seus interesses financeiros estão mais intimamente ligados à melhoria da educação dos brasileiros do que qualquer outro setor. Cada novo brasileiro alfabetizado é um novo leitor em potencial. E é um comprador de jornais e de livros em potencial, pois a relação entre educação e aumento de renda é uma das poucas verdades universalmente aceitas em economia.

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