
Cleusa Beckel
Coordenadora de ensino
Da alfabetização à profissão (Fonte: Jornal Zero Hora/RS)
Data:
15/09/05
Numa sociedade que busca sujeitos cada vez mais competentes, queremos que nossos jovens possam decidir-se cada vez mais cedo por uma profissão. E para conseguirem aprovação é preciso que tenham desenvolvido suas habilidades para saber ler, interpretar, escrever, relacionar, analisar, com êxito, as questões apresentadas nas seleções. Não é possível conseguir tudo isto sem que nossos educadores tenham mobilizado seus educandos, durante sua caminhada escolar, para a aprendizagem, pois sabemos que para aprender é preciso querer. E este querer se refere tanto ao educando quanto ao educador.
Precisamos, então, refletir sobre as práticas letivas que nos têm acompanhado. Já na infância, a criança lê o mundo que a rodeia muito antes de um aprendizado sistemático da leitura e escrita. Quantas vezes somos surpreendidos por crianças que identificam as marcas dos produtos pelos rótulos, reconhecem os nomes das lojas, as placas de trânsito, os títulos dos livros de histórias. Estas descobertas estão relacionadas ao uso social da leitura e da escrita, ou seja, da prática. Neste sentido, estou me referindo ao termo usado por muitos autores a partir da década de 80, o letramento, ou seja, quando a alfabetização é vista de forma mais abrangente do que a ação de ensinar/aprender a ler e a escrever. Desde bem pequenas, as crianças já possuem o letramento, pois começam a ter os primeiros contatos sistematizados com o universo da leitura, interagindo com diferentes portadores de leitura e escrita, uma vez que estes são usados nas práticas sociais: guias telefônicos, jornais, revistas, bulas de remédios, cartas... Nesse momento, cabe aos educadores (família-escola) estimular estas descobertas. Ou seja, quando o educando descobre a utilidade do ato de ler e escrever, interpretando, aplicando, cultivando e exercendo as práticas sociais que usam a escrita, torna-se um sujeito letrado, que vai à busca pelo seu conhecimento, com condições de mais tarde ser colocado em xeque. Para que esta vontade de aprender permaneça acesa, é fundamental que todos os educadores oportunizem situações de aprendizagem contextualizadas, levando em conta os saberes de seus educandos numa constante troca, em que ambos aprendam. Para conseguirmos uma educação de qualidade, é preciso alfabetizar letrando, ou seja, não apenas ensinar a ler e a escrever de forma mecânica, mas no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se torne ao mesmo tempo alfabetizado e letrado.
Fonte: Jornal Zero Hora/RS, 03/09/05, página 15.


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