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Artigos e entrevistas

autor do livro Inclusão e Avaliação na Escola de alunos com necessidades educacionais especiais

Entrevista com o Prof. Hugo Otto Beyer
Data: 17/10/05

1? Por que vale a pena escrever um livro sobre a ?Inclusão e Avaliação na Escola de Alunos com Necessidades Educacionais Especiais??

Em primeiro lugar, porque a temática da inclusão escolar ou da educação inclusiva encontra-se no centro das atuais políticas educacionais brasileiras para alunos com deficiência. Não apenas isto, ela encontra-se presente como projeto educacional na maioria dos países. Desde a década de 60, em que se deram as primeiras experiências de integração, nos países nórdicos, até a década de 90, em que o conceito da educação inclusiva influencia as políticas educacionais de muitos países, nos primeiros anos do séc. XXI tal concepção adquire unanimidade na comunidade internacional como projeto educacional.

Assim, vale a pena, e é até mesmo necessário, escrever sobre esta temática, dada as ainda existentes lacunas, particularmente na elaboração de estratégias educacionais que possibilitem a conversão do projeto pedagógico da inclusão em prática escolar factível.

2? Para a realidade educacional brasileira, qual ou quais aspectos podem ser apontados como mais difíceis, quando se pensa na prática escolar tendo em vista o projeto inclusivo?

O primeiro aspecto que gostaria de mencionar volta-se à história do desenvolvimento da concepção de integração escolar, primeiramente, e de inclusão escolar, posteriormente, em nosso país. Diferentemente de muitos países europeus, cujas histórias estiveram atreladas às iniciativas de grupos sociais de base, isto é, famílias, professores e escolas, no Brasil tal história se deu de outra maneira.

As maiores iniciativas em nosso país, em direção a um projeto político-pedagógico de inclusão escolar, ocorreram a partir dos gestores da área educacional. Possivelmente em decorrência dos encontros em Jomtien, na Tailândia, em 1990, e em Salamanca, na Espanha, em 1994, em que representantes de dezenas de países participaram, e de onde resultaram documentos com claros acentos no sentido de uma educação inclusiva e sem segregação, a política educacional brasileira passou a priorizar a educação inclusiva.

Vejo aí o elemento de dificuldade, ou seja, nossa história de práticas escolares de inclusão dos alunos com necessidades especiais não teve como seu componente o envolvimento gradativo da comunidade escolar no projeto inclusivo. Pensando num exemplo bem simples, é como um casamento arranjado entre os pais dos noivos, sem que entre estes tenha havido um relacionamento anterior de amor e afeto. As escolas são chamadas a participar do projeto inclusivo, porém precisam se adequar rapidamente a uma realidade pedagógica que ainda não possuem. A comunidade escolar (professores, especialistas, alunos e famílias), principalmente, é chamada a envolver-se em um projeto pedagógico que desconhece e no qual se sente despreparada para desempenhar seu papel.

3? Em decorrência, o que pode ser feito para alterar esta situação e buscar caminhos de solução?

Em primeiro lugar, é necessário ficar bem claro que nada pode ser feito em termos de uma prática escolar inclusiva sem a participação da comunidade escolar como um todo. A educação inclusiva não é ação de ?uma andorinha só?. Podemos esquecer a idéia da professora heróica que se dispõe a aceitar as crianças difíceis que outras escolas ou professores evitam. Também devemos abandonar o conceito de ?mainstreaming?, ou da corrente principal, em que o aluno com necessidades especiais é integrado através do sistema de ?cascatas?, isto é, integra-se na escola proporcionalmente às suas possibilidades ou capacidades.

Ato contínuo, as escolas (ou as secretarias responsáveis) devem ou deveriam promover encontros sistemáticos em que representantes das respectivas comunidades ? pais, professores, equipes diretiva e pedagógica, funcionários ? estudassem formas de envolver os diferentes segmentos da comunidade escolar em ações sistemáticas, visando a promoção do projeto inclusivo, perpassando algumas fases: (a) reuniões para conscientização e informação a respeito do projeto de inclusão escolar, em que pais, professores e funcionários da escola participem; (b) reuniões de capacitação docente, visando a prática inclusiva, em que todos os professores da escola participem; (c) reuniões voltadas especialmente para as equipe diretiva e pedagógica, com formação para a gestão pedagógica do projeto inclusivo; (d) reuniões com os funcionários da escola, para sua formação em serviço, visando o mesmo projeto.

Quanto mais cedo tais ações forem desencadeadas nas escolas, tão mais rapidamente se poderá esperar que o projeto inclusivo ganhe a parceria positiva das comunidades escolares, tendo em vista sua exeqüibilidade.

4? A partir das experiências já realizadas em outros países, quais destaques conceituais e metodológicos podem ser feitos e que podem ser de auxílio para as experiências de inclusão desenvolvidas no Brasil?

Primeiramente, conforme já enfatizado na pergunta anterior, a participação de todos os integrantes da comunidade escolar. Não é demais enfatizar este ponto, pois se, por um lado, a inclusão escolar não se faz por meio de um segmento apenas da escola, por outro é característica essencial de uma escola inclusiva o envolvimento de toda a comunidade. Em outras palavras, não se fala de um professor inclusivo, de uma família inclusiva, ou de uma criança incluída, porém fala-se de escolas inclusivas. E este conceito pressupõe a pluralidade, o envolvimento de todos.

Em segundo lugar, os dois principais princípios de uma educação que busca ser inclusiva, e que se constituem, por um lado, na promoção da convivência e aprendizagem comum de crianças com e sem necessidades especiais, sem, por outro, descuidar da elaboração de uma pedagogia escolar que vá de encontro a tais necessidades. Podemos pensar, aqui, no que significa uma pedagogia que corresponda às necessidades de alunos com deficiência visual, auditiva, mental, com paralisia cerebral ou autismo, com dificuldades na aprendizagem, e assim por diante.

Em terceiro lugar, o conceito de educação especial subsidiária, e que significa não dispensar todo o rico acervo construído pela educação especial, ao longo de décadas de existência. Evidentemente, alguns critérios precisam ser observados ao se elaborar um corpus de apoio da educação especial para as experiências de inclusão escolar, principalmente o cuidado para se evitar a transferência para as práticas pedagógicas de inclusão da herança terapêutica advinda da hegemonia da área médica na educação especial.

Por último, o conceito de bidocência, empregado nas experiências européias de inclusão, em que o professor responsável tem a parceria de um colega com conhecimento específico na área das necessidades especiais. É importante destacar que isto não significa a ação de apenas um especialista na área, porém é igualmente importante que os conhecimentos recíprocos, de ambos docentes, sejam compartilhados entre os mesmos, e sejam disponibilizados a todas as crianças em sala de aula, não apenas àquelas que apresentam necessidades educacionais especiais.

5? Para concluir, qual a sua expectativa a respeito dos rumos que a educação inclusiva possa a vir a tomar no Brasil?

Cabe destacar que a proposta da educação inclusiva é altamente desafiadora, face à complexa realidade social e econômica de nosso país. O Brasil é um país com sérios mecanismos geradores de desigualdades sociais. Isto implica no atendimento público deficitário, nas áreas da saúde e da educação, o que tem repercussão direta na elaboração e operacionalização de uma educação abrangente de qualidade.

Com isto, o sistema escolar enfrenta reais dificuldades para poder operacionalizar uma educação que seja de qualidade e que contemple as diferenças e necessidades existentes nas escolas.

Minha expectativa é que tais obstáculos sejam gradualmente superados e que o processo de inclusão escolar se estenda da legislação para uma prática escolar efetiva. Isto será possível na medida em que, gradativamente, professores, famílias e gestores educacionais tomem consciência dos espaços e das funções que devem preencher e que colaborem, cada um a seu modo e na sua medida, para a consecução de uma prática escolar realmente inclusiva.

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