
Jussara Hoffmann
Direção Editorial Mediação
Brasil: um país de leitores?
Data:
22/10/07
Neste ano fiz uma longa viagem. Algumas cenas ao longo dela me sugeriram o tema desta página. A primeira delas foi a de uma família de estrangeiros – um casal de idade média e seu filho adolescente –, que, na sala de espera do aeroporto, permaneceram todo o tempo lendo, cada qual o seu livro. Permaneciam tranqüilos, sempre fixados nas leituras, enquanto outros passageiros reclamavam da espera, caminhavam, faziam lanches, conversavam. Por coincidência, sentaram próximos ao meu assento. Eles continuaram a ler assim que o avião decolou, logo após a refeição servida e quando acordaram pela manhã. O rapaz, que devia ter 13 ou 14 anos, só parou de ler quando terminou o livro que não era pequeno. Já em outro país, a segunda cena, muito interessante, foi de um cartaz em frente a uma livraria de uma pequena cidade à beira-mar. O cartaz apresentava um surfista sorrindo e equilibrando-se na prancha com um livro na mão, chamando atenção para a importância da leitura para quem gosta de esporte. A terceira cena vivida foi em um pequeno vilarejo de passagem para as montanhas. Na avenida central, encontrei o que se denominaria no Brasil de “sebo”, só que, nesse caso, apresentou-se uma acolhedora e organizada livraria cujo nome é “Pre-loved” (pré-amados, ou seja, livros que foram “amados” por um primeiro leitor). Uma última cena, dentre muitas como essas, chamou-me também a atenção: no retorno para Porto Alegre, entre aeroportos e avião, havia duas meninas também estrangeiras, de seis e oito anos, que leram, durante todo tempo, livros de mais de 300 páginas cada uma, de letra miúda, de páginas amarelecidas, cujos títulos não pude ver porque elas permaneceram a maioria do tempo com eles abertos no colo, já que eram pesados para que os bracinhos miúdos das duas pudessem segurá-los.
A pergunta que me fiz, na ocasião, ao observar cenas como essas, é por que elas são tão raras no Brasil. Costuma-se ver em viagens, parques e outros locais, jovens e adultos ocupando o seu tempo de lazer com brinquedos, com equipamentos de som, com videogames e computadores, com jornais e revistas nas mãos. Poucos brasileiros (quase só adultos) lêem livros para se distrair, pelo prazer de ler.
O que precisaremos fazer, como pais e educadores para formar “leitores para sempre” (Demo, 2006) considerando que a leitura é essencial à cultura de um povo?
Nas cenas que descrevi, os adultos liam ao lado dos filhos. No país que visitei, bibliotecas e livrarias ocupam lugares privilegiados em shoppings e ruas centrais, mesmo das pequenas cidades e procuram ser convidativas. O prazer de ler, tal como o cartaz sugeriu, equivale ao prazer de surfar, de viajar, de descansar. Não se pode esperar que crianças se tornem leitoras se pais e educadores não forem leitores, se a sociedade não lhes despertar e oportunizar o prazer da leitura. São os adultos que podem orientar a leitura em relação às diferentes possibilidades, auxiliando na escolha de livros divertidos, conversando sobre o que estão lendo, acompanhando as crianças em suas próprias escolhas. Uma leitura mecânica ou obrigatória em nada contribui para despertar o encantamento com os livros.
Livros são caros, dizem muitas pessoas, e por isso não os compram. Mas celulares são caros, brinquedos mais ainda, revistas são caras e superficiais (além de questionáveis em seus conteúdos), TVs, DVDs, equipamentos de som são caros. E as famílias brasileiras “de todas as camadas sociais” disponibilizam aos filhos tais objetos. Só não disponibilizam livros.
Nas escolas se aprende que é “preciso ler” para adquirir maior cultura, para falar e escrever melhor, para ascender social e profissionalmente! Mas o que “é preciso”, o que “se tem de fazer” nem sempre é convidativo, agradável. É urgente despertar, de fato, para o “gostar de ler”. Ler para brincar com as palavras, ler para imaginar e imaginar-se, ler para sonhar, ler por gostar de ler. Adultos que são apaixonados por livros contagiam as crianças com a mesma paixão.
Uma grande amiga e educadora, apaixonada por livros, conta que despertou em seus filhos o gostar de ler espalhando livros pela casa: no banheiro, na mesinha da sala, na cozinha, no quarto deles. Quando encontrava bons livros, os deixava à toa pela casa, como um objeto à procura de algum dono. De vez em quando, percebia que eles mudavam de lugar, ou, então, ouvia comentários dos filhos sobre alguma passagem deles. Assim ela sabia que os estavam lendo, que os livros haviam encontrado um dono. Com isto, formou filhos leitores, de passo em passo, de conto em conto, de livro em livro.
Confesso, em relação a meus filhos, que não tive o mesmo sucesso. Gostaria que lessem mais. E fomos sempre ávidos leitores, meu marido e eu. Mas hoje volto à luta e faço minha campanha de avó. Compro e leio livros para minha neta desde bebê. No início até riram de minha empreitada. Mas foi minha neta quem venceu os céticos. Os livros ganharam mais e mais espaço no lugar dos brinquedos a ponto de trocá-los por um livro novo. Preciso dizer que, por vezes, até eu me surpreendo com o que vi e vejo acontecer. Com nove meses, ela já escutava as histórias no colo, atenta, e por longo tempo, com o dedinho apontado para as ilustrações preferidas. Aos dez meses, já folheava as páginas, olhava os livros sozinha, do começo ao fim, do fim ao começo, antes mesmo de engatinhar, de caminhar. Seus livros de história foram se misturar aos dos adultos, na sala, “para que não mexesse mais nos da mamãe e do papai”. Com um ano e meio, não os rasga, carrega-os com as duas mãos como se fossem tesouros, e pede pra se ler “de novo” muitas e muitas vezes. Mais do que isto: nomeia todas as gravuras e começa a contar suas histórias.
Minha neta será leitora para sempre? Hoje livros de todos os tamanhos e formas são alguns dos seus “brinquedos” preferidos. Se não “for para sempre” a magia de hoje, com certeza, terá muita força amanhã.
A paixão pelos livros dos avós, dos pais e educadores é essencial. É preciso nascer e crescer entre livros e leitores para se gostar de ler.
Texto publicado na Revista Direcional/SP - ano 3 - edição 33 - out 07.


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