
Entrevista Jussara Hoffmann / Santo André
Data:
16/06/04
1. Qual a importância da formação permanente para os professores e para a
educação em geral?
O século XXI deverá configurar-se, em nosso país, como um tempo de as instituições educacionais assumirem o compromisso com a formação em serviço dos profissionais da educação. Em primeiro lugar, porque o maior acesso de alunos às escolas provocou a necessidade de maior número de professores e, conseqüentemente, a proliferação de cursos de formação para o magistério de qualidade e exigências questionáveis. Aliado a isto, pesquisas revelam o empobrecimento dos professores em geral ? o que pode resultar em empobrecimento cultural. Em segundo lugar, porque, como em todas as profissões, os avanços teóricos e tecnológicos passam a exigir dos profissionais da educação o compromisso com a formação permanente ? única forma de acompanhar o ritmo de desenvolvimento dessa geração e de dar conta dos problemas sociais que invadem a escola decorrente do maior acesso às classes populares. Nenhuma profissão se consolida apenas nos bancos da academia. Mais do qualquer profissional, o professor, responsável pela educação de crianças e jovens, precisa estudar muito e durante toda a sua vida profissional, bem como precisa compartilhar experiências com outros educadores para se manter atualizado em sua profissão.
2. A senhora poderia falar sobre formação do professor reflexivo e a auto
formação?
O grande dilema de programas de formação é o próprio dilema da aprendizagem: não se pode ensinar ao professor tudo o que ele precisa aprender. O ?ser professor? envolve histórias de vida, conhecimentos construídos e o contexto real do trabalho pedagógico. Mais do que a agir de forma diferente, o professor precisa pensar de jeito diferente acerca do que faz. Ele poderá até sentir a necessidade de mudança, mas se não entender e acreditar no sentido da nova proposta pedagógica, ele não saberá como desenvolvê-la em sala de aula. Ao planejar, avaliar, decidir, relacionar-se com o aluno, o professor imprime nessas ações o seu modo de ser, sua individualidade, reinterpretando normas e prescrições a sua própria maneira. Portanto, o ponto de partida é a escuta, a troca, o compartilhamento de idéias entre professores em serviço, para que, através do apoio mútuo, da interlocução, possam reconstruir valores e crenças que embasarão as ?metodologias a serem recriadas? por cada um em sua sala de aula. O que demanda tempo e seriedade na condução de tais programas.
3. Qual a diferença entre ciclos e escolarização em séries?
A resistência dos professores ao regime de ciclos explica, justamente, a importância de compreenderem o significado subjacente a essa forma de organização curricular. Não reprovar os alunos na educação básica é muito mais um princípio moral do que uma determinação burocrática. A justiça é a virtude essencial do agir moral. Ser injusto é ferir direitos. Todas as crianças brasileiras têm, por lei, o direito a um atendimento educacional digno, independentemente de suas histórias de vida, de suas ?diferenças individuais?, de seus tempos diferentes de aprender. Todas têm por direito um tempo de oito anos na escola ? tempo de cuidados, de acolhimento, de afeto, de respeito ? sem obstáculos, sem punições. É preciso que os educadores transformem esse tempo e espaço em real aprendizagem, em acesso ao saber, em formação moral. Temos, assim, urgentemente de aprender a promover aprendizagens no contexto da diversidade, da heterogeneidade, como um ato de justiça frente a essa geração, a esse país.
4. Qual a importância dos ciclos em relação à escolaridade em séries?
Sem estender-me no assunto, diria que a maior importância está em exercitar a inclusão como princípio. Enquanto os professores não construírem a possibilidade do trabalho pedagógico com turmas heterogêneas, a inclusão será somente uma questão panfletária e não uma questão de cidadania. As escolas particulares, por exemplo, dizem seguir uma escolaridade em séries, mas na verdade praticam fortemente a não-reprovação. Os índices de reprovação são praticamente nulos porque os alunos recebem o máximo de apoio pedagógico quando têm dificuldades. Assim, repito, a questão é querer a aprendizagem e a promoção de todos os alunos e batalhar por isso ? uma questão de princípio.
5. E os ciclos em relação aos tempos do aluno e do professor?
O tempo é uma construção subjetiva. Duas questões se tornam necessárias: quem determina os tempos da aprendizagem? Quem acompanha a quem? Os peregrinos dizem que é o próprio caminho que determina o tempo de percorrê-lo, e que o importante é estar sempre caminhando, ou seja, evoluindo, progredindo. Os caminhos do professor são os caminhos dos alunos, caso contrário ele segue à frente, solitário, deixando os alunos abandonados, ignorados. No meu entender, o ?tempos de ensinar? são determinados pelo ?tempos de aprender? ? é preciso o ajuste de tempo frente aos diferentes ritmos dos alunos, não deixando ninguém para trás.
6. O que a senhora tem a dizer sobre a avaliação nos ciclos?
Precisamos ressignificar a avaliação em todas as instâncias da educação. A discussão em torno dos ciclos apenas alerta sobre as divergências teóricas em relação à avaliação educacional, e, nesse sentido, essa polêmica é altamente positiva. Mas só estaremos ressignificando a prática avaliativa quando intensificarmos as discussões sobre alfabetização, sobre interdisciplinaridade, sobre estética na educação, enfim, quando abordarmos o que realmente importa: a aprendizagem em suas múltiplas dimensões. Para ressignificar o processo avaliativo é preciso entender avaliação como promoção de melhores oportunidades de aprendizagem para todos os alunos.
7. Gostaria de acrescentar algo?
Programas de formação continuada exigem a presença de elementos mediadores que oportunizem aos professores momentos sérios de reflexão teórica e de discussão de suas práticas. Os professores, na sua maioria, estão pedindo socorro. Platão perguntou: ?Como procurarás por algo que nem ao menos sabes o que é?? Não basta dizer ao professor que ele precisa fazer diferente, é preciso construir junto com ele esse caminho. Todos os princípios que se defende em relação aos alunos, devem valer para os professores em formação: ser justo para com eles é oferecer-lhes o direito a uma orientação digna, espaços e tempos de formação que levem em conta suas histórias de vida, suas condições de trabalho, suas inseguranças e desejos.


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