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Artigos e entrevistas

Fabrício Carpinejar
Prefácio do livro "Crônica: o vôo da palavra" de Walter Galvani

Carta ao leitor
Data: 11/07/05

Passar três vezes a manteiga no pão, com os lados alternados da faca, afirma o caráter.

É o equivalente a barbear o dia no pão.

Não começo o jornal pelo Esporte, Polícia, Política, Economia, Geral ou Variedades. Inicio pela seção de carta dos leitores. Aquilo que me interessa. O impulso de uma vida em comentar outras vidas. Quem deixou sua comodidade, o conforto de um desaforo, um diálogo perecível de corredor, para escrever e verbalizar sua opinião. Quem se prestou a se importar com o mundo e com o convívio. Quem não se contentou em suspirar ou bocejar. Ainda encontrou tempo para passar no correio. Não duvido que o remetente tenha espalhado a cola com os dedos nas dobras do envelope. Aposto que no momento de limpar ainda chupou o dedo, a cola, a tinta, como quem chupa o sangue. Sem nojo. Porque na literatura não se tem nojo, mas compreensão. As cartas me despertam curiosidades maiores do que a notícia. Demonstram uma pureza doméstica, não domada. Pureza insuportavelmente insatisfeita, como toda a felicidade que se preza. São detalhes, distrações, coisas mínimas. Cartas tão importantes quanto um besouro guardado em uma caixinha de fósforos. Em dez linhas, alguém decide que vai participar da história. Não importa se tem razão ou não, importa a vontade de sair de casa, o que há por detrás desse singelo ato de transpor a aparência para chegar à transparência. Fico emocionado ao ler pequenos depoimentos, vibrantes, como se o destino dependesse de um comentário. As cartas do leitor são obituário dos vivos, convidam para a missa do primeiro dia, a missa do nascimento. Algo em Walter Galvani lembra a seção de cartas: a efusão. Ele ama para escrever o que ama. Não consegue guardar um conhecimento somente para si, um livro somente para si, uma técnica somente para si. Tudo o que recebe quer partilhar. Tudo o que aprende tem que passar adiante. Sua generosidade é inteligência. Parto do princípio de que os grandes escritores são fofoqueiros. Galvani não abafa um segredo sequer um único dia. Vai contar para Carla na mesma hora. Contar aos seus leitores no mesmo momento. Ele é o milagre, quando o autor se torna palavra. Quando o autor conversa com a linguagem de igual para igual, sem dever nada. Não existe fiado na vida de Galvani - ele paga adiantado. Como as cartas enviadas ao jornal, apresenta uma teimosia de infância. Uma confiança atenta, uma fé inalterável de que é útil falar, se expor, contradizer, não deixar em branco a página ou os olhos. Uma pupila sempre cai bem numa página. Lá estará piscando em cada fraseado de Galvani. Há nele uma necessidade de interferir no cotidiano, de se inventar no desejo que vem à tona e nunca vai à toa. Um desejo escrito é um desejo que será amado duas vezes assim que lido. Galvani inspira, o que ? convenhamos - é muito mais do que ensinar.

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