
Inês Pedrosa, Escritora Portuguesa
Carta ao escritor Walter Galvani sobre seu livro
A arte de galvanizar a palavra
Data:
12/07/05
Ao contrário do que a actual profusão de cronistas pode, à primeira vista, fazer crer, a crónica é uma das mais difíceis disciplinas da arte literária. Trata-se de captar essa coisa inefável a que chamamos «o espírito do tempo» num espaço limitado e segundo normas implícitas de legibilidade. Ainda por cima, a crónica exerce-se como ginástica regular de coreografias sempre diferentes. Exige-se-lhe lógica e imaginação, surpresa e essa intuição da verdade a que damos o nome de perspicácia. É obra. Alguns cronistas ancoram no inesgotável porto das figuras exemplares, e ficam por ali a boiar por entre os feitos dos heróis ou vilões do quotidiano, por natureza carregados de sentido e de moral, aos quais basta mudar semanalmente uma ou outra vírgula e um ou outro adjectivo.
Walter Galvani escolheu para as suas crónicas o caminho oposto a este: a história íntima da humanidade. Mais do que olhar à lupa o sentido esperançoso ou desiludido de seres e acontecimentos dispersos, o escritor transfigura-se neles, sem medo de se escrever escrevendo-os.
Cronista de amplos saberes e apurado sabor, além de poderoso ficcionista, Walter Galvani dispôs-se a partilhar generosamente o seu talento com aqueles que sonham mudar o mundo através da palavra. A palavra, sublinha Galvani, é «o supremo bem da Humanidade, a maior invenção, muito maior do que a roda, o motor, o petróleo como energia, a electricidade, o avião, o barco, a espada, o canhão, a espingarda, o revólver, a bomba, o cinema, a televisão e o telefone».
O primeiro mérito desta «Oficina da Crónica» é precisamente o de nos fazer acreditar no poder concreto que a palavra tem para mudar o mundo. Intimista ou sociológica, romanesca ou ensaística, a crónica nasce sempre como movimento de uma voz que quer comunicar. Ora, como relembra o Autor, «comunicar e comunidade têm o mesmo radical ? comum, aquilo que ?pertence a todos ou a muitos?». A arte da crónica consiste em articular este sentido de comunidade ou comunhão com uma observação ou uma reflexão particular ? um ponto de vista pessoal sobre o mundo. A Ética, como escreveu Emanuel Lévinas, nasce do súbito encontro de um rosto. A capacidade de pensar sobre a partir de um rosto (ou acontecimento, ou leitura, ou...) é essencial ao reconhecimento aprofundado do mundo, atravessando a muralha voyeurística e banalizadora do social.
Pasolini dizia: «A complexidade torna comum, a simplicidade diversifica». A crónica, é, afinal, a busca desse terrível e fascinante resíduo da infância chamado «verdade». Em Walter Galvani, a realidade funciona como uma engrenagem de memórias sobrepostas, uma espécie de máquina do tempo forjada no rigor e na complexidade da infância, apagando a ilusória distância entre o vivido e o imaginado. É esse ponto de vista total que, antes de mais nada, o distingue como um grande escritor. Walter Galvani soube crescer e amadurecer como escritor e ser humano mantendo, contra ventos e tempestades, essa inocência fundamental que ilumina as palavras, tornando-as entidades precisas. A precisão é, aliás, um elemento essencial desta sua oficina
(bem como de toda a sua oficina de escritor): na sua aparente e serena limpidez, a escrita de Walter Galvani é um trabalho de rigor cirúrgico, quer ao nível estético quer ao nível ético. A Ética é também uma Estética, e ambas exigem um infinito saber técnico; experiente e sábio em múltiplos géneros literários - e o jornalismo digno desse nome é uma área importante da literatura, embora haja pouca gente interessada em perceber isto ? , Galvani ensina-nos o peso e a respiração específica das figuras de estilo, alerta-nos para a música múltipla das sintaxes e para essa respiração verbal específica a que se chama «voz» ou «estilo».
Ensinar é ampliar horizontes, ou não é nada ? o Autor sabe-o como ninguém. Mas é particularmente difícil conduzir alguém pelos domínios da criatividade resistindo à tentação do dirigismo mental. Muitos manuais de «escrita criativa» sofrem dessa limitação uniformizadora: quem não escrever como Raymond Carver ou Dostoievski, pura e simplesmente, não pode escrever. Acresce que a chave do génio de Dostoievski não se descobre à primeira escavadela no jardim da leitura. Assim, terminamos com uma série de mini-Carvers, epígonos especializados que transformam a arte literária em mera linha de montagem de produtos a comercializar. Ora o labor de Galvani é precisamente o oposto: parte do princípio de que um escritor tem de ser, antes de mais, um voraz leitor. A par dessa voracidade, há que cultivar um espírito crítico permanente; quem não é capaz de reflectir sobre o que lê, nunca será capaz de descobrir uma voz própria para escrever. Por isso o Autor apresenta e analisa, nesta oficina, uma ampla e criteriosa selecção de crónicas. E por isso também, tem o cuidado de apelar continuamente a uma reflexão pessoal do leitor sobre os textos que lhe oferece. Em síntese, Walter Galvani acende, com o humor do filósofo e o amor do escritor, a luz que pulsa por dentro da pele de cada vocábulo. E não há vocação mais nobre para a literatura do que a de iluminar o nosso mundo.
Este texto foi publicado no Jornal Zero Hora (RS), Caderno Cultura, dia 30/07/05.


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