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No dia 06 de março, o Jornal El País informou que havia 300 milhões de alunos afastados das escolas. (https://brasil.elpais.com/internacional/2020-03-06/quase-300-milhoes-de-alunos-ja-foram-afetados-pelo-fechamento-de-escolas-por-conta-do-coronavirus.html). No dia 17 de março, o número já havia saltado para 776 milhões com escolas fechadas em pelo menos 85 países segundo a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco. Uma situação caótica no mundo inteiro.

Em entrevista ao El País, a diretora-geral-adjunta da Unesco para assuntos educacionais, a italiana Stefania Gianni, disse que não sabemos o tempo que as escolas deverão passar fechadas, mas “caso os tempos se prolonguem, e cruzemos os dedos para que não seja assim, haverá um impacto seguro no direito a uma educação igualitária e inclusiva para todos”. 

Os motivos são variados, inclusive se o fechamento dos colégios é apenas “temporário”, salientou a Unesco. Para começar, a redução do tempo de ensino influi no rendimento escolar. E, independentemente do impacto econômico para as famílias que se veem obrigadas a se ajustar à presença dos filhos em casa, o fechamento das escolas gera também “desigualdades educacionais”, já que famílias com mais folga econômica “tendem a ter níveis mais altos de educação e mais recursos para compensar” a perda de aulas, além de proporcionar atividades que compensem a falta do colégio.

A advertência da Unesco é de que o coronavírus trata-se de uma situação “sem precedentes” por sua amplitude. E isso exige esforços coordenados de todos os governos para garantir que o coronavírus não aumente ainda mais a disparidade social. O organismo pôs à disposição dos países uma lista de plataformas e mecanismos de aprendizagem à distância para compensar a perda de horário letivo, que apontarei mais adiante.

Meu objetivo neste artigo, concordando com a advertência da Unesco, é dizer que professores e escolas estão enfrentando um desafio sem precedentes: o de desenvolver uma educação à distância a crianças e jovens que precisam muito do espaço escolar para aprender, desse ambiente lúdico que promove a interação e a socialização com professores e colegas, que necessitam de todo apoio pedagógico e cuidados que as escolas podem lhes oferecer.

Dentre esses desafios, está o saber lidar com a avaliação, que focarei especialmente neste texto.

Preciso alertar que não estarei falando de “avaliação de resultados”, com tarefas a serem cumpridas pelos estudantes como se estivessem nas escolas, de exercícios a completar em livros didáticos, mas, sim, da avaliação processual, contínua e mediadora, que visa a oferecer a cada aluno e a todos oportunidades dignas de se desenvolverem moral e intelectualmente.

Muito se falou nas últimas décadas que, para se alcançar uma educação igualitária, uma escola de fato inclusiva, é essencial compreender e respeitar cada aluno em seu jeito de ser e de aprender, adequando as propostas educativas às suas DIFERENTES IDADES, POSSIBILIDADES E INTERESSES. 

Pois bem, nesse momento, em que muitas escolas – sem estarem preparadas para isso –, buscam entrar nas casas de milhões de estudantes, será compulsório respeitar a diversidade do contexto sociocultural em nosso país. 

Como planejar experiências educativas virtuais INSTIGANTES, MOBILIZADORAS e, sobretudo, não compulsórias, não comparativas, não classificatórias, que só causariam maior impacto aos alunos e familiares nesse momento estressante?

O maior problema, como alerta a Unesco, é que não temos tempo para planejar soluções ideais! É preciso agir imediatamente para que toda população estudantil não sofra com a falta de atendimento educacional, com a falta de escola, com a falta da merenda escolar e do convívio social (já tão prejudicado em nosso país pelas questões de insegurança na maioria das cidades).

O desafio será aprender "em ação", com escolas e profissionais de educação criando, inventando, testando, mas principalmente OUVINDO o que alunos e familiares têm a dizer sobre o que propõem. Essas reações, comentários e dúvidas auxiliarão escolas a dar continuidade ao processo. Uma escuta sensível, eu diria, diante do que é difícil e novo para todos. 

Plataformas de ensino, computadores, celulares, internet, televisão a cabo, espaço para estudar em silêncio, livros, material para desenhar, recortar, modelar, imprimir textos, adultos que leiam as orientações das escolas? Esses recursos não costumam faltar aos alunos da rede privada de ensino em geral. Mas faltam para milhões de alunos e professores da rede pública. Soluções terão de ser encontradas JÁ por governantes, gestores e educadores, pois esses estudantes poderão ser os mais prejudicados. Além disso, será muito difícil para as famílias vencerem a reclusão preventiva dos filhos sem que crianças e jovens tenham compromissos a cumprir no seu dia a dia, muitas vezes solitários em suas moradias. 

Se pensarmos nos professores, muitos não terão condições de  acompanhar os alunos de modo virtual (como outros países estão fazendo) por falta de recursos tecnológicos ou por não saberem utilizá-los. Por certo será necessário assumirmos, tal como  os profissionais da saúde e da segurança, um forte espírito de equipe, uma ação solidária de escolas, professores ativos e inativos disponíveis a oferecer esse apoio virtual.

O mais relevante será o papel mediador dos professores, agindo de forma  a alcançar o ENVOLVIMENTO de cada um dos estudantes durante esse tempo, mantendo-os todos interessados e ativos intelectualmente, sem que se tenha a preocupação, insisto, em alcançar os ditos "resultados de aprendizagem". Resultados de episódios como esse são absolutamente intangíveis... Crianças, jovens e adultos estão passando por momentos que marcarão a humanidade para sempre. Quando voltarem às escolas, serão pessoas diferentes. É o momento de escolas e professores contribuírem para que essa diferença seja positiva.

Que propostas poderão ser feitas para provocá-los a compartilhar desse momento da história, interessados em interagir com familiares, a serem responsáveis e solidários, a enfrentar as dificuldades com coragem e esperança, auxiliando amigos e parentes, prevenindo-se eles próprios do contágio? 

Minha geração não viveu situação semelhante. Como pertenço ao grupo de risco (brincadeira), arrisco a oferecer algumas sugestões na esperança de fomentar essa discussão. O que penso ser importante nesse momento?

– Priorizar propostas educativas que despertem em crianças e jovens demonstrações de INICIATIVA, CRIATIVIDADE, COMPROMISSO, RESPONSABILIDADE SOCIAL,  no lugar de dar valorizar a aprendizagem de conteúdos.

– COMPARTILHAR com toda a rede de ensino, pública e privada, materiais e plataformas educacionais de ensino à distância a serem utilizadas por escolas e professores que não dispõem desses recursos. É hora de se SOLIDARIZAR, pelo bem de crianças e jovens desse país. (A Unesco pôs à disposição dos países uma lista de plataformas e mecanismos de aprendizagem à distância para compensar a perda de horário letivo. (Distance learning solutions. <https://en.unesco.org/themes/education-emergencies/coronavirus-school-closures/solutions >. Acesso em mar. 2020.)

– Minimizar a DISTÂNCIA FÍSICA entre alunos e profissionais da educação, promovendo espaços de DIÁLOGO e de INTERAÇÃO virtual (conversas individuais, em pequenos grupos, em grandes grupos, usando todos os recursos tecnológicos de que dispomos e das redes sociais).

– Propor TEMPOS FLEXÍVEIS de realização de tarefas pelos estudantes, garantindo-lhes acesso virtual a gestores e professores ao longo do dia.

– Garantir-lhes apoio pedagógico DIFERENCIADO E DIVERSIFICADO, ajustado às possibilidades de cada estudante, desde jogos e brincadeiras para os pequenos até gincanas intelectuais para os mais velhos. Quem sabe brincadeiras virtuais em matemática, produção de livros literários, de músicas, vídeos, exposição virtual de pinturas, desenhos, modelagem, artesanato, uso coletivo de aplicativos com jogos e outros?   

– Instigar cada aluno a ser PROTAGONISTA de sua aprendizagem, levando-o a delinear seu próprio projeto de estudo, mesmo as crianças pequenas.

–  Organizar maneiras de REGISTRAR, ANOTAR, COMENTAR o que está acontecendo, divulgando entre professores, alunos e familiares esses registros.

– Propor aos alunos oportunidade de se AUTOAVALIAR por meio de diários de bordo, produção de vídeos, organização de seus próprios portfólios, realização de exercícios com autocorreção, leituras ou materiais complementares pela internet.

– PLANEJAR JÁ O RETORNO de alunos e professores às escolas, no sentido de uma reflexão crítica sobre a continuidade das atividades escolares diante de experiências difíceis que todos nós poderemos viver com o avanço da pandemia em nosso país. Imagino, hoje, que não se poderá falar em RETOMADA das atividades escolares, mas em RECOMEÇO. Por certo, professores e alunos não serão os mesmos, e as escolas precisarão de um tempo para compreendê-los.  

Só estou iniciando essa conversa... Buscando alguma forma de auxiliar estudantes, professores e famílias a superar esse triste e sério episódio de nossa história.  

 


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