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Uma condição essencial para se falar em projetos de trabalho ou projetos pedagógicos é a participação das crianças na escolha do tema e no planejamento do caminho percorrido. Todo e qualquer projeto pressupõe um planejamento que tem como principal fim atingir um objetivo, seja ele resolver uma situação-problema ou sanar uma questão do cotidiano.

Ao trazer essa ideia para o campo educativo, Hernández (1998) delineou os projetos de trabalho como uma proposta que traz o aluno, em nosso caso, a criança, como um sujeito que, a todo momento, é convocado a participar, agir, interpretar, tomar decisões, selecionar, dialogar, investigar, trocar informações, se deparar com dúvidas, elaborar questões, estabelecer relações, comparar, produzir, analisar, enfim, ampliar seu conhecimento.

Logo, no trabalho com projetos, o ponto de partida é perceber qual temática é pertinente para grande parte do grupo de crianças, buscando extrair o que é significativo para elas, percebendo quais são seus interesses, curiosidades e/ou necessidades. Isso pode ser captado por meio de observações do professor, das falas das crianças, suas manifestações não verbais ou pela escolha direta das crianças, tudo isso registrado por meio de diversos instrumentos (registros escritos, fotografias, gravações, filmagens, etc.), os quais serão discutidos mais a fundo no quarto capítulo deste livro, sobre a documentação pedagógica.

O registro das observações articulado às falas das crianças dão sustentação ao delineamento dos novos passos do planejamento, os quais também podem ser redimensionados, já que se considera a flexibilidade como uma característica do planejamento com a participação das crianças envolvidas. 

Esse é o fio condutor dos projetos de trabalho: uma questão, uma situação-problema, uma indagação, que não pode ser perdida ou deslocada ao longo do caminho. Um projeto de trabalho não nasce “da cabeça do professor” que quer levar algo legal para as crianças, assim como também não pode se distanciar de sua origem devido às intervenções das crianças, que devem ser consideradas, mas que não podem se desviar do propósito inicial do projeto, correndo-se o risco de se tornarem investigações acessórias. É necessária uma sintonia entre aquilo que foi escrito, projetado inicialmente, e o que é realizado.

Tendo essa premissa no trabalho pedagógico, não só com na Educação Infantil, mas com todas fases do ensino de uma proposta curricular pautada em projetos de trabalho, valoriza-se a escuta, os rumos tomados pelas investigações e a participação coletiva. Portanto, essa perspectiva conta com o fator da imprevisibilidade como constitutivo do trabalho pedagógico, o que aumenta a responsabilidade do professor no seu aprimoramento em termos de atuação e qualificação.

A partir da definição da temática, inicia-se o levantamento dos conhecimentos prévios das crianças e das versões que os cercam, coletando-se as suas hipóteses e também de suas famílias.

O diagnóstico abarca a comunicação às famílias da origem do projeto e a solicitação da sua contribuição para o andamento do processo. Elas podem participar e enriquecer o percurso com sugestões, envio de materiais relacionados ao tema e disponibilização de experiências que podem ser realizadas com o grupo no tocante ao tema e à resolução do problema. No bojo desse processo de comunicação com as famílias, também podem ser realizadas práticas investigativas com questões enviadas para que respondam ao seu modo. Essas contribuições podem dar um novo vigor para o projeto e suscitar novos horizontes de trabalho. 

Ao escutar as hipóteses das crianças e seus conhecimentos prévios que, por vezes, apontam para diversas visões acerca de fatos, captam-se as informações, realiza-se o tratamento dessas e as aprendizagens são analisadas pelos sujeitos envolvidos. Tudo isso por meio de experiências lúdicas, diálogos e atividades sistematizadas e documentadas ao longo do caminho de aprofundamento na temática.

Nesse sentido, podemos sistematizar o percurso dos projetos de trabalho com base nas seguintes questões a serem trabalhadas com as crianças de maneira circular: o que queremos saber? Por quê? Para quê? O que já sabemos? Como faremos para saber mais? Onde buscar mais informações? O que tenho aprendido? Até retornarmos novamente à primeira questão.

Assim a “carta náutica”, a escrita do projeto de trabalho, é construída em conjunto.

É claro que, ao longo da trajetória dessa viagem, o roteiro pode acolher mudanças, sem obviamente fugir do seu destino. A própria escrita do projeto de trabalho deve evidenciar essa abertura para o novo e o imprevisível. A escrita do projeto, em que o professor se porta como um escriba e organizador das múltiplas vozes de todo o grupo, é um plano inicial que ganha desdobramento no processo, por isso, seu texto é bem detalhado no diagnóstico do tema e é objetivo quanto a propostas de procedimentos, já que essa escrita ganha vida mesmo no conjunto das experiências realizadas ao longo do caminho. A escrita inicial do projeto de trabalho deve conter:

– a narrativa de como surgiu o tema (bem como a indagação que sintetiza a investigação do grupo e que norteará todo o percurso);
– a descrição de todo o diagnóstico (o que as crianças já sabem sobre o tema e o que querem saber);
– os objetivos;
– a fundamentação teórica que lhe dá suporte;
– a sinalização dos encaminhamentos iniciais para as primeiras investigações em busca da resolução das questões (indicando algumas atividades acompanhadas dos conhecimentos que serão abordados e das linguagens trabalhadas).

Também é fundamental prever o processo avaliativo que irá permear o projeto, em especial, a forma como serão coletados os dados e realizado o acompanhamento das aprendizagens das crianças, de como será feita a documentação pedagógica para a construção da memória do projeto e como se dará visibilidade às aprendizagens. 

Assim, a escrita do projeto de trabalho é um componente muito importante da trajetória de aprendizagem, mas não o único. É o conjunto de diversas ações que de fato dão vida ao projeto de trabalho, que ganham materialidade e visibilidade por meio da documentação pedagógica.

O conjunto de experiências educativas passa a ser fruto de um processo de elaboração coletiva e de reflexão partilhada entre crianças e dessas com os professores e outros sujeitos da comunidade educativa. Dessa forma, a instituição passa a ser um lócus privilegiado de trabalho coletivo. Para que essas vivências tão significativas não se esvaiam, sejam suporte para reflexão por parte dos envolvidos, se tornem memória ressignificada, é indispensável que as experiências sejam documentadas de diferentes formas.

Leia mais em "Projetos de trabalho na Educação Infantil" (Editora Mediação/2017)



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