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Habilidades e competências

no século XXI

Pedro Demo
ISBN: 978-85-7706-053-5
ed. 104 p.
Interessante e merecedora de destaque é a abordagem do assunto por esse experiente educador, que aponta a necessidade de os alunos abandonarem a postura passiva de frequentadores de aulas para emergirem como pesquisadores e autores. Eles precisam manusear fontes, inquirir dados e narrativas, desconstruir e reconstruir teorias e análises, tendo como meta principal um olhar próprio, crítico e autocrítico. Sugere fortemente que se exercite, nessa geração, o trabalho coletivo: pesquisar em grupo, com divisão de tarefas, procurando amealhar um tipo de conhecimento compartilhado. O ponto forte do livro é sua proposta de introduzir os alunos no mundo científico, transformando alunos e professores em aprendizes eternos.
  • Sumário
    Habilidades/competências:
    desenvolvimento como oportunidade

    Introdução
    Habilidades ou competências? Terminologia e conceito
    Habilidades/competências no plural
    Habilidades/competências não aprendidas
    Habilidades/competências aprendidas
    Habilidades/competências básicas
    Fluência tecnológica
    Habilidades/competências acadêmicas e não acadêmicas
    Habilidades/competências pessoais
    Outras tantas habilidades/competências

    Habilidades/competências do século XXI:
    desafios renovados frente a inovações tecnológicas

    Novas alfabetizações
    Sobre a geração net
    Para além da versatilidade tecnológica
    Autoria: de consumidor a partícipe no uso das tecnologias
    Autoria crítica e autocrítica: motores de busca inteligentes
    Colaboração solidária: a riqueza das redes
    Saber pensar colaborativo: o desafio do jogo coletivo
    Reconstrução da teoria crítica em ambientes de novas tecnologias
    Reconstrução da informação disponível
    Dar conta de desafios interativos e visuais

    Habilidades/competências de todos os séculos: lidando com a informação e o conhecimento
    Alfabetização na era digital
    Cultivar a pesquisa com base em fontes primárias
    Equilibrar conteúdos e habilidades

    Habilidades/competências eternas: saber pensar e intervir para gerar oportunidades
    Saber pensar e intervir no contexto da politicidade humana
    Aprender bem, exercitando argumentação fundamentada
    Conduzir as novas gerações a conviver civilizadamente
    Manejar conhecimento com autoria e autonomia
    Aprender a aprender
    Pensar criticamente
    Pesquisar e elaborar
    Reconfigurar a autoria em sua face individual e coletiva
    Desenvolver o espírito científico
    Pensar matematicamente
    Comunicar-se em outra língua

    Promovendo a habilidade/competência
    do saber pensar: um exercício pedagógico
  • Trecho
    Habilidades/competências no plural

    Em geral, entende-se melhor uma ideia quando se a divide em partes. Embora este procedimento tenha limitações claras, pode ser útil para aclarar conceitos. Primeiro, falamos de "“habilidades/competências"” (no plural), porque elas são incontáveis. Ao sugerirmos que a habilidade das habilidades é saber pensar, não excluímos, de modo algum, sua multiplicidade. Apenas oferecemos referência seletiva. Segundo, podemos organizar as habilidades de muitas maneiras. Aqui faço apenas um exercício preliminar, didático.


    Habilidades/competências não aprendidas
    Seriam aquelas que trazemos conosco sem, aparentemente, termos investido esforço nelas. São produto de pelo menos três fontes possíveis:
    a) da evolução (o ser humano é mais bem evoluído em sua capacidade mental por conta da evolução do cérebro; os animais que vivem em árvores são hábeis em mover-se entre elas; pássaros são hábeis voadores, em geral); b) da tradição cultural (habilidades passadas de geração em geração, como cozinhar, lidar com o ambiente, cuidar de doenças, sem falar na linguagem materna); c) do talento inato (há pessoas mais hábeis em certas coisas, como música, dança, comunicação, cálculo). Tais habilidades podem ser mais reflexivas ou mais práticas, sem dicotomias. A formação do neocórtex representa o desenvolvimento da capacidade analítica e lógica, indo além das capacidades afetivas e emocionais (partes reptiliana e límbica) (Lewis et al., 2000). Obviamente que esta capacidade "“mental"” se desenvolveu para dar conta da realidade, não apenas para "“pensar"” a realidade. Todas as culturas promovem habilidades entre seus membros, fazendo parte de tradições (positivas e negativas), como escultura, cerâmica, tecnologias de modo geral. Muitas detêm sentido prático eminente -– resolver problemas das comunidades -– mas isto não pode encobrir que toda habilidade implica igualmente algo de saber pensar. No plano mais pessoal, é comum reconhecermos "“talentos"” inatos, como pode ser o do factótum, do tocador de violão, do orador. Diz-se facilmente da matemática: todos podem aprender, mas sem algum talento não é possível virar matemático propriamente (Lesh et al., 2007).
    Esta percepção é, na verdade, prosaica: o equipamento natural com que nascemos não é igual em série repetida, apenas mecânico, admitindo versatilidade própria da biodiversidade. Sem talento, não haveria como transformar uma criança em virtuose de violino ou em hacker...
    Cabe lembrar que habilidades/competências não aprendidas podem ser sensivelmente aprimoradas, se submetidas a processos de aprendizagem, ainda que os resultados não sejam necessariamente automáticos. Pode ocorrer, por exemplo, que um músico nato, ao estudar música, perca sua espontaneidade e criatividade, por conta das regulações teóricas e práticas que o estudo pode implicar. Assim é que um bom teórico em música ou em futebol não precisa ser bom músico ou bom jogador. A aprendizagem, porém, quando bem feita, não precisa atrapalhar a criatividade. Ao contrário, pode ser alavanca decisiva ao abrir os horizontes dos interessados. Um factótum pode melhorar muito ao fazer um curso pertinente de mecânica, ou algo similar, assim como um violonista nato pode abrilhantar ainda mais sua performance ao tornar-se expert em seu ramo.

    Trecho retirado das páginas 13 e 14.

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