Matemática: uma pedagogia voltada para a autonomia

Matemática: uma pedagogia voltada para a autonomia

Professora Anastácia Maldaner, abordando a aprendizagem da Matemática nos anos iniciais, defende a importância de uma pedagogia voltada para a autonomia 

(Texto na íntegra nas págs. 232 à 236 do livro "Aprendendo Matemática nos anos iniciais")

A busca por uma metodologia que possa contemplar a autonomia intelectual das crianças foi o que me levou a realizar esse estudo e a escrever este livro. Ele traz o relato de uma prática que toma por embasamento um referencial teórico construído em meio a estudos e partilhas junto às colegas professoras por vários anos. Narrar uma prática desenvolvida com base em uma metodologia problematizadora não é tarefa simples. A construção do conhecimento, por esse caminho, realiza-se num processo em que avanços e recuos são mesclados com dificuldades e desafios. A mediação torna-se possível porque o aluno, com suas ações e reações, manifesta continuamente suas necessidades e formas de perceber as situações. Foi possível perceber que mesmo as crianças tímidas, carentes e discriminadas viam-se encorajadas a expor suas ideias. Tal atitude revelava suas capacidades, aumentando sua autoconfiança. Cada vez mais mostravam interesse de também ouvir as outras para verificar se o raciocínio dos colegas seguia o mesmo caminho que o seu. Ouvir o colega significava, igualmente, aprender novas formas de fazer cálculos, talvez de forma mais simples e mais rápida. A admiração pela ideia do outro e a iniciativa de parabenizá-lo e até de dar-lhe uma salva de palmas em razão da descoberta de uma nova estratégia mostram que é possível – também através do ensino da Matemática – criar um ambiente favorável ao desenvolvimento do pensamento autônomo na criança.

Especificamente em relação ao conhecimento matemático, que mudanças foram passíveis de observação?

Talvez a mais importante tenha sido o surgimento do cálculo mental. Esse não surge quando os conteúdos são sistematicamente transmitidos por definições e regras a serem seguidas; antes, exige a compreensão efetiva do conceito de número, do sistema de numeração decimal e da operação em questão. Com o domínio real desses conteúdos, a criança se move livremente no mundo dos números, por caminhos diferentes e surpreendentes.

Nesse processo, evidencia-se a autonomia intelectual, porquanto a flexibilidade de pensamento, a criatividade, a formulação de hipóteses e a comprovação das mesmas são exigidas a todo momento. É importante notar também que o desenvolvimento dos recursos da criança pode reforçar o conceito de si mesma, e esse, por sua vez, permite aumentar seu senso de propósito e direção frente às diversas situações. Com certeza, é inútil incentivá-la a sentir orgulho de si (a ter uma autoimagem positiva) sem ajudá-la a desenvolver as competências e faculdades das quais gostaria de se orgulhar. Igualmente é inútil dizer-lhe que tem a dignidade e o valor de ser humano quando o que necessita, de forma mais imediata e objetiva, é ser instigada a expressar a singularidade da sua experiência e a originalidade do seu ponto de vista pessoal.

Dessa forma, uma metodologia problematizadora, voltada para a construção dos conceitos, revelou-se, para mim, um caminho a ser percorrido para suscitar a autonomia das crianças. Ainda que nos pautemos por teorias já largamente apregoadas, a maneira como as utilizamos ao construirmos os conhecimentos com elas é sempre pessoal e, nesse sentido, nova. Por isso cada professor que busca abrir caminhos, enquanto se inspira em pesquisas anteriores, pode fazer suas as palavras do poeta Thiago de Mello: “Não, não tenho caminho novo. O que tenho de novo é o jeito de caminhar”.

A partir desse modo pessoal de andar por caminhos que outros já trilharam é que teço ou reitero alguns princípios norteadores de uma proposta pedagógica para a construção dos conceitos numéricos nos anos iniciais do Ensino Fundamental com vistas ao desenvolvimento da autonomia da criança.

Em relação ao ambiente escolar, o que é necessário?

O ambiente necessário para o desenvolvimento intelectual é aquele que inspira confiança, que instiga, que encoraja os alunos a propor soluções, explorar possibilidades, levantar hipóteses, justificar seu raciocínio e validar suas próprias conclusões. Ambientes autoritários inibem a sua expressão e o estabelecimento de relações baseadas no respeito mútuo – condições necessárias para o desenvolvimento da autonomia.

O que é mais importante em relação à metodologia?

A possibilidade de se criar um ambiente de confiança está diretamente relacionada a uma metodologia que tem por princípio básico a valorização dos conhecimentos prévios dos alunos. Nesse sentido, a estratégia mais importante é o diálogo professor/aluno e aluno/aluno, que pode ser suscitado através da problematização. Assim, a manifestação oral, porquanto permite a expressão de modo mais espontâneo, é priorizada em contraposição ao uso do papel e lápis.

Os jogos, por irem ao encontro de uma tendência natural da criança e permitir interações e desafios, devem ser explorados na construção de conceitos matemáticos para uma posterior sistematização. A avaliação é constante e se apoia sobre as atividades desenvolvidas pelos alunos e sobre suas próprias falas enquanto interagem com os outros. Os erros deixam de indicar fracassos e passam a constituir fontes de informação para o professor, já que possibilitam sua orientação para a continuidade do processo. Em síntese: a metodologia deve estar voltada mais para a experiência, a criação de estratégias do que para os resultados; mais para o descobrir e o criar do que para o decorar e o reproduzir.

Que postura que deve ter o professor?

A problematização sobre os conhecimentos matemáticos exige que o professor domine os conceitos que pretende reconstruir com seus alunos. É importante que, ao longo desse processo, o profissional não adiante soluções e nem deixe o aluno entregue a si mesmo, mas, a partir de seus pequenos avanços, leve-o a observar, analisar, estabelecer relações, fazer conjecturas e comprovações, orientando-o, assim, para que chegue à descoberta dos conceitos. Cabe ao professor coordenar a socialização das diversas formas de solução de um problema, instigando os alunos a falarem de seus raciocínios para os colegas, comparando os caminhos apresentados, levantando hipóteses e orientando para a progressiva sistematização dos conteúdos compreendidos.

Qual a orientação ao aluno?

Dentro dessa visão, é importante que o aluno tenha legítimas experiências matemáticas, como as têm os matemáticos, isto é, que participe da construção de seus conhecimentos. Que seja orientado pelo caminho da descoberta e, assim, possa sentir – o que normalmente lhe é negado – a emoção da descoberta de um caminho produtivo. Sua participação ativa é imprescindível. Quanto maior seu envolvimento, desde o levantamento do problema até sua solução, maior a amplitude de sua compreensão do conceito envolvido. Essa participação consiste em indagar, dialogar, analisar, levantar hipóteses, propor soluções, expor seus raciocínios, observar os raciocínios dos outros, compará-los, concluir sobre os mesmos, sintetizar e recontextualizar os conhecimentos construídos. Sua capacidade de interagir com os colegas e com o professor é de fundamental importância nesse processo.

Os pais aceitam essa metodologia problematizadora?

Os pais têm o direito de serem informados sobre a proposta pedagógica desenvolvida pela escola. Isso lhes possibilita acompanhar os filhos e lidar melhor com suas inquietações, principalmente no caso da implantação de uma proposta por eles desconhecida. É importante oportunizar a participação em algumas oficinas, para que possam vivenciar parte da proposta e assim perceber a importância das atividades que são realizadas na escola. A compreensão da proposta pelos pais transmite tranquilidade e entusiasmo aos alunos. Também facilita que o processo se complete sem a interferência indevida por parte daqueles pais que veem no ensino tradicional a única forma de aprender Matemática.

É possível desenvolvê-l

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